Monday, April 11, 2005

Notas literárias de um fim de semana

O mestre dos magos



Mais uma vez Paulo Coelho ocupa as manchetes de jornais e revistas, daqui e do mundo. Seu novo livro “ O Zahir”, promete bater novos recordes de venda. Até novembro, o romance, de 320 páginas será editado em 42 idiomas, em 83 países, de acordo com informações do site oficial . do escritor.

Sabe-se que muitas pessoas “importantes” são fãs do mago brasileiro. De Sharon Stone à Bill Clinton, passando por Madonna, Bill Gates, entre outros. A crítica é cada vez mais feroz ao escritor. Que, lembrem-se, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras.

“Porque ele faz tanto sucesso?” É a pergunta que não quer calar. Ora, por vários motivos. O mais óbvio: leitores modernos não querem ter que pensar muito. Tudo já vem pronto, com raciocínios, conclusões e moral da história. Para que pensar?

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Na sua coluna de ontem, no Correio, Juremir Machado fala sobre isso. Para mim soou como inveja pura. Jura até que é um bom escritor. Seu livro Fronteiras é belíssimo. Mas sua mania de “criar” polêmica, por vezes, é simplesmente chata.

Enfim, Paulo Coelho está aí. queiram ou não. E cada vez mais milionário. Para jubilo de poucos e ódio de muitos.


O mestre dos malas



Esse cara é um idiota completo. Mas suas idéias tem um eco enorme sobre e por aqueles que estão no poder mundial. Francis Fukuyama já previu o fim da história. E foi levado a sério. Agora, a idéia dele é legitimar o ilegítimo.

Seu novo livro, Construção de Estados - Idéias Contemporâneas, é um libelo ao unilateralismo. Ele defende, entre outros absurdos, a idéia de que os Estados Unidos, têm o direito, e até mesmo o dever, de intervir e subverter a soberania de um país que não seja capaz de lidar com seus problemas. Leia-se países que representem risco e/ou interesse para os norte-americanos.

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Sim, quanta arrogância. No entanto Fukuiama tem livre trânsito entre os falcões da Casa Branca. Para entender o maniqueísmo da “direita religiosa americana, amém”, vale a leitura.


O mestre dos segredinhos



Dan Brown é um cara esperto. Não chega a ser um escritor brilhante. Está no nível e na trilha de Paulo Coelho. Tramas envolvendo espiritualidade, mistérios e o inexplicável sempre terão grande acolhida entre o público.

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Dan, o mesmo cara do incrível Código da Vinci, relança o seu primeiro livro, onde percorre os sinuosos labirintos das agências de espinonagem.

Fortaleza Digital nos fala do poder das novas tecnologias e como elas podem transformar o mundo. Esse tema é fascinante. E o cara é o cara. Não é literatura, mas é divertido. Dica do amigo Dimi.

Monday, April 04, 2005

O Papa é pop, o pop não poupa ninguém

Morre, depois de 26 anos de pontificado, o papa que melhor usou a mídia em defesa da Igreja.

A música dos Engenheiros do Havaí sempre teve muito de verdade. Talvez mais do que eles houvessem imaginado. O papa não era pop apenas porque estava na mídia mas, e sobretudo, porque usou a mídia como nenhum outro antes dele. João Paulo II foi um ícone da cultura pop mesmo não sendo um artista ou músico. Era pop porque estava na mídia. Sempre. E a Igreja? Bom, a Igreja se beneficiou muito essa característica de marqueteiro. A mensagem do papa chegou a todos cantos do planeta. Com a mídia ele potencializou uma das características mais marcantes do catolicismo: a pregação da palavra de Cristo. Ele surpreendeu a todos quando ordenou que se colocasse o Vaticano na rede mundial de computadores. Sempre esteve antenado com as questões de seu tempo.Do ponto de vista religioso é considerado como um dos melhores pontífices de todos os tempos. Do ponto de vista diplomático é considerado um grande conciliador. Ainda que seu prestígio tenha ajudado a derrubar regimes. Como o comunismo em quase todo o leste europeu.Era um conservador, não em termos humanitários, mas no que era estritamente dogmático. Sempre foi contra o homossexualismo e os métodos anti-conceptivos. Sempre se opôs ao que considerasse fora dos preceitos cristãos. Não se pode culpá-lo. A Igreja é isso. Não se pode esperar que haja mudanças e progressos em seus códigos. E ele os defendeu ferrenhamente. Por outro lado reconheceu e pediu perdão por alguns erros históricos da Igreja, como a Inquisição, a indiferença ao holocausto e à escravidão, entre outras coisas. Para além de credos e ideologias, foi um bom homem.E sua morte foi e é como sua vida. O mundo inteiro está vendo. Através da mídia.

Monday, March 28, 2005

Pequenas notas sobre o mundo no feriado de Páscoa

Geopolítica do avesso

Fotos da BBC


O Paquistão anunciou a compra de caças F-16 dos EUA. A Índia, por sua vez, criticou a atitude do governo americano, já que isso pode afetar o equilíbrio da região. É bom lembrar que Índia e Paquistão tem um conflito que se arrasta há anos sobre o território da Caxemira. E, como se não bastasse, os dois países tem a bomba atômica. Qual foi a solução genial encontrada pelo Tio Sam? Oferecer os caças à Índia também.
Detalhe: na semana passada o secretário de defesa dos EUA, Donald Rumsfeld, havia criticado a Venezuela por comprar 100 mil fuzis AK 47 da Rússia.


Geopolítica do céu



E o papa, hein? Por mais que não se concorde com os princípios defendidos pela igreja que ele chefia a sua determinação é admirável. No domingo de Páscoa , data mais importante para os católicos, sua santidade até tentou abençoar seu rebanho, mas não conseguiu falar.
Detalhe: é a primeira vez que João Paulo II não comanda as liturgias pascais. Especula-se que a campanha para suceder-lhe no trono de São Pedro já teria começado.


Geopolítica da mudança



A União dos Estados Socialistas Soviéticos deixou de existir há algum tempo. Um muro caiu em Berlim e muitas coisas caíram em Moscou. Mesmo assim, a “Mãe Rússia” mantinha uma grande influência e controle sobre os países outrora integrantes do bloco soviético. Porém, a onda de emancipação tomou conta da região. Regimes que eram controlados há anos por dirigentes pró-Rússia estão caindo. O Quirguistão é a bola da vez. Em fevereiro houve uma eleição parlamentar que o povo quirguiz rejeitou. Seguiram-se protestos que acabaram por derrubar o presidente Askar Akayev. O presidente russo, Vladmir Putin, afirma que a crise não representa um risco para os interesses de Moscou.
Detalhe: a Rússia teve um papel controverso na eleição da Ucrânia, país muito importante da região. Apoiou até o fim o candidato da situação. Perdeu. O candidato vencedor, Viktor Yushchenko, que tem um perfil mais independente da influência moscovita, foi envenenado antes das eleições e quase morreu.

Geopolítica da política

Para não dizer que não falei em flores. O nosso respeitado presidente da Câmara dos Deputados corre o risco de perder o lugar que ainda nem esquentou.
É o que pretende o deputado federal Alceu Collares, PDT.
Collares acha que o nobre deputado é desprepado, tem incontinência verbal e representa um risco para as instituições democráticas. O deputado gaúcho acusa Severino Xic Xic de falta de decoro parlamentar, o que poderia tirar-lhe do comando da casa.
Detalhe: todos concordamos com isso, mas será que os 300 deputados que votaram em Severino, incluindo praticamente todo o PSDB, também pensam assim?

Friday, March 18, 2005

Mundo Moderno, Mundo Cão...

Essa tirinha dos Malvados é um tratado de sociologia...


Até porque tô com preguiça de escrever. Mal dos tempos?

Abraços...

Tuesday, March 01, 2005

Invasões Tecnológicas

Há tempos que as RCT ou Revoluções Científico-Tecnológicas determinam os rumos da sociedade. Se analisarmos desde uma perspectiva antropológica a tecnologia transformou totalmente as relações sociais. Todo tipo de interação humana se dá, necessariamente, no nível de um suporte tecnológico.

Os meios de comunicação hoje ocupam a quase totalidade de nosso tempo. E cada vez mais nos mesclamos com elementos tecnológicos. Desnecessário citar exemplos, agora mesmo estamos interagindo nesse meio. O Google é o oráculo do mundo moderno

Tudo são obviedades. Nem vou entrar no mérito da dominação das máquinas. Nada de Exterminador do Futuro ou coisas do gênero. Mas Inimigo do Estado ou Minority Report estão bem próximos, ou já presentes.

Exemplos disso? Já ouviram falar do projeto Echelon, do Departamento de Estado dos EUA? Pois é, vale a pena dar uma pesquisada. É assustador. O conceito de 1984 está disseminado pela indústria cultural em reality shows. E achamos bacana e todos queríamos estar lá, sendo monitorados 24 horas por dia.

Além disso ninguém se imagina sem Internet. Da mesma maneira que não imagina o quão fácil é invadir um sistema de banco de dados. E-mails então... são muito mais vulneráveis que gostaríamos.

A mais nova "arma" tecnológica que chega ao mercado promete dar muita dor de cabeça. Alguma operadoras de telefonia móvel estão lançando um localizador de celulares. Usando a mesma premissa de um GPS (Global Positioning System) encontra o celular desejado, e seu dono provavelmente, onde quer se encontre. E com uma margem de erro de 10 à 25 metros.
A empresa faz questão de frizar que não incorre em invasão de privacidade, uma vez que só poderão ser localizados aparelhos com a prévia autorização do cliente.

EIS A QUESTÃO ! Imaginem a situação: namorada ciumenta, mãe desconfiada, marido inseguro, ou algo parecido.

Vou habilitar o teu número para rastreamento, amor.
Não acho uma boa idéia, por que isso?
Eu sabia, safado, sem-vergonha. Tu tá me escondendo alguma coisa.

Isto é só um exemplo dos inúmeros constrangimentos que a novidade pode acarretar. Somos "obrigados" a nos inserirmos nesse mundo tecnológico. Matrix? É difícil tentar escapar disso.

E isso é justo, certo, ético? Não sei. Mas é a nossa realidade.

E só pra não perder a prática, vamos dar uma espiadinha?

Thursday, February 03, 2005

UTOPIAS

Do grego utopos: o não lugar, lugar nenhum. Esse conceito etimológico da palavra já dá bastante o que pensar.
A palavra Utopia ganhou outra dimensão quando no século XVI, talvez o século mais interessante da humanidade, o inglês Tomas Morus escreveu um livro com este nome. Nele o autor falava sobre um lugar onde todos tinham direitos iguais. Todos escolhiam os líderes, que se revezavam no poder. Todos tinham obrigações para com os outros. Todos plantavam e todos colhiam. Tudo era dividido e a paz era absoluta. Ou seja, o lugar ideal. O que todo socialista sonha. Por isso, desde então, Utopia serve para designar os ideais de um mundo melhor.

Não por acaso esse foi um dos temas do Fórum Social Mundial. E reuniu um dos maiores públicos. Em plena manhã de sábado os arredores do auditório Araújo Viana já estavam repletos de gente. Todos querendo ver e ouvir José Saramago, Eduardo Galeano (escritores), Ignácio Ramonet (jornalista, editor do Le Monde Diplomatique), Juan Zaragoza (ex-diretor da Unesco), Luiz Dulce (secretário da presidência).

A idéia era fazer um paralelo entre o personagem Dom Quixote de la Mancha e a possibilidade das utopias hoje. Como se sabe, Dom Quixote foi um sonhador/louco que lutou, a sua maneira, por um mundo melhor. A obra-prima de Cervantes está completando 400 anos. Acredita-se que o autor tenha bebido na fonte de Morus para construir seu personagem.

A palestra foi memorável. Algo surreal. O Araújo Viana estava simplesmente transbordando. Todos ajeitados como podiam. Haviam fones para tradução. Mas o espanhol estava muito claro, dispensando a auxílio dos aparelhos que mais chiavam do que ajudavam.

Todos falaram coisas belas e emocionantes sobre utopias. A todo momento eram interrompidos pelos aplausos de uma platéia de utópicos, sedentos pela confirmação que ainda podemos sonhar. Compararam a utopia a um horizonte que devemos sempre buscar. Sem nunca nos darmos por satisfeitos. Quando Ramonet disse que nós, participantes do FSM, éramos os verdadeiros Quixotes de hoje foi a glória. Quando chegou a vez de Saramago falar todos aplaudiram muito. Era a principal estrela daquela constelação. E ele começou surpreendendo a todos:

- Utopia é a coisa mais inútil que existe !!!! disparou o português.

Por um breve momento houve um silêncio de total perplexidade. Estaria ele blefando, provocando? O que esse louco tá dizendo? Logo aqui. A primeira reação foi uma risada geral. Sim, pensaram, ele só pode estar brincando. !!! Mas aquele homem velho que já deve ter visto muitas coisas na vida tinha a platéia na mão. E não estava brincando.

- Experimentem falar em utopia para uma pessoa que tem fome. Utopia não serve para nada!! continuou o portuga.

O auditório veio abaixo em aplausos. Ele disse exatamente o contrário de tudo o que havia sido dito até então. Mas mesmo assim ninguém teve coragem de vaiá-lo. Por um simples motivo: ele havia dito uma coisa escandalosamente verdadeira.

Não ri, nem aplaudi. Mantive a minha coerência mais por perplexidade do que por convicção.

Para que existe mesmo a Utopia?




Friday, January 28, 2005

Biosfera Social (Mundial?)

Vocês lembram do Projeto Biosfera 2 ? No início da década de 90, um milionário texano resolveu investir em um projeto científico que simulava a atmosfera da terra. Dentro daquele complexo gigantesco, 8 cientistas (4 mulheres e 4 homens), deveriam plantar, colher, cuidar de animais, além de terem que realizar pesquisas e uma série de outras coisas. Principalmente se aturar.

Bom, neste precursor do Big Brother eles permaneceram por 2 anos. As pesquisas não puderam ser feitas porque os integrantes passavam quase todo o tempo cuidando apenas das suas necessidades básicas. Ao final, começou a faltar oxigênio. Enfim, dá pra falar horas sobre os mais diversos aspectos a serem abordados sobre o assunto. Para saber mais:

Mas a Biosfera entra aqui apenas como uma analogia ao Fórum Social Mundial. Um artigo da Maria Rita Kehl, na Agência Carta Maior, me levou a fazer esta comparação. No artigo Maria Rita fala do risco do Fórum Social Mundial ser apenas o simulacro do outro mundo possível que queremos construir. Se lermos Baudrillard ampliaremos ainda mais essa idéia.

O Território Social Mundial é o protótipo do mundo perfeito. Ali todas as tribos se encontram e se aceitam. Ali todos são iguais. Todas as línguas e culturas se misturam. Todos partilhando dos mesmos sonhos. Andar por este território dá a sensação que estamos vivendo um sonho. Uma utopia. Mas, e depois?

Essa Biosfera Social nos protege do mundo lá fora. Aqui podemos sonhar. O capitalismo, aqui visto como inimigo de um mundo melhor, não tem como entrar nessa "pan-terra". Aqui o mundo melhor acontece a cada gesto, conversa, a cada ação individual ou coletiva. Mas e depois que levantarmos as barracas e abandonarmos as estruturas protetoras da Biosfera? Ainda estaremos protegidos?

Será preciso voltar sempre para este pedaço de terra imunizado? Ou vamos transformar o mundo todo ao redor em algo melhor ?

Me ocorreu uma música de Tom Jobim......

"Volte meu bem, por favor
não deixe o mundo mal te pegar outra vez
me abrace simplesmente,
não fale, não lembre,
não chore, meu bem...."

Abraços......