Até que a morte nos liberte....
Há alguns anos atrás comecei a escrever um livro. Não cheguei a terminá-lo... É um romance histórico. Ou a história romanceada. Enfim, é uma visão da Revolução Federalista (1893-1895), em que pretendi vislumbrar o lado humano de uma guerra tão selvagem (todas o são, claro). Não quis dar destaque para as degolas e coisas do gênero. Vou ir postando ele em pequenas partes aqui....
Abraços
Está chovendo o diabo lá fora. Pela nesga de abertura de minha barraca posso ver os cavalos encharcados amarrados numa cerca pelo buçal*. Protegidos sob uma paineira, duas sentinelas buscam espantar o sono e o frio a goles de canha. Chamo-me Trajano Lopes. Faço parte, junto com meus irmãos, de um destacamento das forças revolucionárias arregimentado por meu pai, Cel. Apolinário Lopes, entancieiro de Bagé e veterano de outras guerras. Estou me recuperando de um balaço no vazio. Nos primeiros dias de convalescença fui tomado por um súbito medo de morrer, digo súbito porque nunca havia pensado na morte nem nunca a temi. Mas isto foi antes, em um tempo que não guardo. Fui ferido no combate de Inhanduí. Estava-mos sob o comando do velho Joca Taveres, lutamos o dia inteiro. Muito gente morreu , nos dois lados, mas os castilhistas estão cantando vitória. Amanhã seguimos para a fronteira.
Buena-dicha. Era o que meu pai nos dizia antes de uma luta. Quer dizer boa sorte. Buena-dicha. Acho que não funcionou comigo! Agora, deitado em minha barraca, ouvindo a chuva pesar sobre ela, penso nos motivos que nos levaram a entrar nesta guerra. Embora hajam claros interesses políticos e comerciais envolvidos, há também o instinto de liberdade dos homens desta terra. Este sentimento que já nasce com o gaúcho e que a vida só faz mais forte. Eu, particularmente, tinha motivos de consciência. Por discordar da república absolutista do Dr. Castilhos, de sua forma nada democrática de exercer o poder, da sua arrogância e, principalmente de suas perseguições e covardia. Nenhum gaúcho que se preze deixaria se governar por um homem destes. Como disse meu pai, esta guerra era inevitável. Si vis pace para belum.
Já nossa mãe ficou extremamente contrariada quando soube que eu e meus irmãos iríamos acompanhar meu pai e seus peões nesta guerra. Perguntou-nos se, com a educação e cultura que nos dera, seríamos capazes de matar um homem sem sequer conhece-lo. Devo dizer que esta pergunta me constrangeu deveras e que eu não soube responde-la na ocasião, tampouco meus irmãos. Depois disto retirou-se da mesa, posto que fazíamos o desjejum, e trancou-se em seu quarto. Saiu de lá a tarde. Tinha feito suas malas e estava decidida. Iria para Paris e só voltaria de lá quando tudo tivesse acabado. Não queria ter o desgosto de enterrar um filho seu. 'Obviamente', nossa irmã Catarina iria com ela. Como Dom Apolinário estava em Melo, no Uruguai nada pode fazer para impedir mas ficou profundamente irritado por termos a deixado partir. Sinto muito saudades de sua presença doce e protetora neste tristes dias...

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