Continuação
Chegamos hoje na fronteira. Ainda sinto dores, mas já posso montar, o que muito me alegra já que fiquei oito dias dentro de um carroção que mais parecia um barco de tanto que sacudia. Minha égua, Hermosita, também parece ter sentido minha falta.
Hoje vai haver uma reunião da cúpula federalista para tratar dos rumos desta revolução. Estamos lutando a quase quatro meses e tudo está se mostrando bem diferente do que eu imaginava. Embora eu nada soubesse de guerras, na prática, nunca pensei que elas transformassem tanto o homem. Já não me reconheço mais. O corpo se enrijeceu e a mente está embrutecida. Nos curtos períodos de descanso os livros têm me ajudado a me ausentar deste inferno. As vezes, deito-me ao relento e fico absorvendo o espetáculo de uma noite do pampa, com seu céu fuzilado por estrelas que parecem querer cair. Nestas horas sinto-me livre e feliz. Mas duram pouco estes momentos e logo sou arrancado desta fantasia como se fosse despertado de um sonho bom. Logo temos que levantar acampamento, montar e lutar. Logo temos que matar e morrer.
Bueno, deixemos de lado as amarguras. Enquanto os generais tratam da guerra eu tratarei do espírito. Vou atravessar a fronteira com meus irmãos e mais alguns peões. Faremos uma visita a casa de La Matilde, cafetina mui conhecida de 'Dom' Apolinário.
Salustiano, um negro velho de confiança de meu pai, perguntou com um risinho sem-vergonha ao meu irmão mais moço.
- Vosmecê já conhece prenda, seu Adriano.
O mano, que era um debochado, repostou :
- Tirando tuas filhas, Salustiano, só as vacas lá da estância.
Como o velho já estava acostumado com este tipo de brincadeira se limitou a bater de leve com o rebenque nas ancas do cavalo de Adriano, fazendo este dar uma troteadinha, e depois irrompeu na sua gargalhada habitual, escancarando sua boca pouco povoada de dentes. Rimos todos.
- Que seja, meu filho. Que seja.
- Quem parece me preocupado é o Antônio. - impliquei.
- Mas não te amofina, seu Tonio, que eu não deixo aquela chinoca se enrodilhar em ti. - brincou Salustiano.
Antônio, nosso irmão mais velho, era o único que o pai já tinha levado no tal bordel e aonde tinha ficado murcho por uma piguancha de nome Mirta. Como ainda era um piazote na época, imagina-se o drama, estava com certo 'receio de rever aquela potra xucra'.
Chegamos na rancho já perto da meia-noite. Como sabia de sabia de nossa vinda, a china velha havia fechado a casa para receber 'los hijos de Dom Apolinário'.
De fato, nosso pai gozava de muito prestígio na casa, posto que tinha um quarto reservado somente para ele com um harém a disposição. Pobre de nossa mãe.

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